1

A praça emoldura um pedaço do Rio de Janeiro. O fundo é azul. Azul também é o short que ela veste, assim como a fonte na qual ela, em primeiro plano, depila as pernas com uma lâmina. Não se preocupa comigo nem com qualquer coisa que esteja fora desse enquadramento no qual parece, desde o meu ponto de observação, totalmente integrada, como se já estivesse contida no traço do arquiteto modernista ao projetar a praça. O azul, a terra, o concreto, o azulejo, a blusa bege, a pele bege, uma e mesma matéria maleável, plástica.

5

Observo a Ruiva sem tentar disfarçar. Ela se corta com a lâmina, um filete de sangue escorre pela perna bege e cai no fundo azul da fonte. Na relação com os diferentes tempos e cores do céu, do mar, da praça, da fonte, do corpo, o filete de sangue é um breve cintilar vermelho, um evento provocado pela contingência do meu olhar. Mas, como se sabe, o instante modifica o tempo.

6

“O que é que você está olhando?”, pergunta ríspida. Eu não respondo, mas me aproximo. “Gente como você não entende”, diz enquanto leva uma mão à perna tentando conter ou esconder o sangue. “Desculpe, eu não queria assustar, só queria conversar, mas é sempre assim, eu assusto as pessoas”, confesso enquanto me sento na borda da fonte. “Gente como você não assusta, você é delicada, é do tipo que não quer incomodar”, desdenha. “Mas assustei você, e você se cortou”.

8

Primeiro percebemos as simetrias. Eu e ela éramos muito parecidas. Ambas haviam saído de outras histórias. Ambas se montavam. Ela com maquiagem, cabelo ruivo e trajes de odalisca. Eu com projetos de teses, ficção na internet, escrita mercenária e textos de gênero indecidível. Nós duas éramos modernas no sentido que foram aqueles estudiosos que propuseram atormentar a natureza para construir a história da ciência. Ela me chamava de Gêmea. Eu a chamava de Jeannie, uma personagem que ela representava com muita graça.

9

Depois descobrimos que simetrias são trajetórias paralelas. A partir daí nossa relação pode ser descrita por termos como “disputa” e “representação tragicômica”. Eu criticava o fato de ela passar o dia inteiro cantando e dançando para o espelho enquanto ouvia no rádio aquela música que diz “shake, shake, shake”. Ela criticava o meu temperamento, atribuindo-me frieza, austeridade e até certo grau de autismo. Eu argumentava que antes de me conhecer ela estava naquela praça sem ter para onde ir. Segundo ela, e usando uma expressão da moda, era evidenteque ela estava perfeitamente incluída e que quem andava perdida, girando no fundo azul sem ter para onde ir era eu. Eu a acusava de se vender a troco de chocolate. Ela me acusava de vender os meus textos por remédios homeopáticos. Eu dizia que ela era fake e carecia de profundidade. Ela que meus cabelos castanhos sutis e luminosos eram produto da mesma marca de tintura que ela usava. E banalizava o “sutis e luminosos”, transformando em frase de comercial aquilo que um dia soara como verso de soneto ou elogio romântico. Ela ameaçava enfiar uma faca na minha barriga, ou na dela. Eu ameaçava me atirar do viaduto ou empurrá-la. Uma de nós era a mulher, uma de nós a artista, você decide quem.

10

Vivíamos entre o Rio e São Paulo, pois a Ruiva tinha arranjado trabalho numa casa noturna nesta cidade. Mesmo dispondo de fontes primárias e do método adequado para estabelecer a relação entre idéias, fatos e experiências, quando ela andava na estrada e tudo ia mal, eu me acalmava olhando aquela fotografia e ordenando as coisas que ficavam em cima do balcão da sala. Aquele era o único reduto do roteiro que eu não lhe permiti adentrar.

12

Na mesma tarde em que retornei, ela foi embora. Nunca mais nos vimos. Soube depois que havia ido para Miami, onde se casara com um negociante de mármores e granitos e trabalhava como atriz. Eu sobrevivi à base de ignatia amara e só muito mais tarde voltei a escrever.

Maria A. B. L.

Calvin Harris


little miss sunshine

Olive: Grandpa, do you think I’m pretty?
Grandpa: Olive, you are the most beautiful girl in the whole world!
Olive: Nah you’re just saying that…
Grandpa: No I’m not kidding I’m madly in love with you, and it’s not because of your brains or your personality.


Nenhum

05Nov09

“Nenhum homem acredita piamente em nenhum outro homem. Pode-se acreditar piamente numa idéia, mas não em um homem. No mais alto grau de confiança que ele pode despertar, haverá sempre o aroma da dúvida – uma sensação meio instintiva e meio lógica de que, no fim das contas, o vigarista deve ter um ás escondido na manga. Esta dúvida, como parece óbvio, é sempre mais do que justificada, porque ainda não nasceu o homem merecedor de confiança ilimitada – sua traição, no máximo, espera apenas por uma tentação suficiente. O problema do mundo não é o de que os homens sejam muito suspeitos neste sentido, mas o de que tendem a ser confiantes demais – e de que ainda confiam demais em outros homens, mesmo depois de amargas experiências. Acredito que as mulheres sejam sabiamente menos sentimentais, tanto nisto como em outras coisas.

Nenhuma mulher casada põe a mão no fogo por seu marido, nem age como se confiasse nele. Sua principal certeza assemelha-se à de um batedor de carteiras: a de que o guarda que o flagrou poderá ser subornado.”

H. L. Mencken


I

love

your

eyes

my

dear

their

splendid

sparkling

fire

when

suddenly

you

raise

them

so

to

cast

a

swift

embrancing

glance.


Milk

03Nov09

Às vezes eu penso em ficar sozinho, sem ninguém para ter que me preocupar. Só que hoje essa falta doeu mais do que eu imaginava. E eu não sei mais o que fazer para aliviar essa dor.


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Lullaby

01Nov09

lullaby


Eu gostaria de dizer que estou vivendo uma fase neutra onde não sei se vou para o sul ou para o norte, só sei que preciso andar para algum lugar. Dessa fase eu aproveito para tomar decisões que não são boas e reclamar de situações que não deveriam acontecer. É a fase mais crítica do meu mês e eu sou capaz de dar uma porrada na cara de alguém. Eu quero bater em alguém. Eu quero descontar em alguém.

epígrafo