Pra quem mesmo?

Oi, tudo bem? Pois é, faz algum tempo desde que me lembro que gostava de escrever. Dias atrás eu revivi um momento especial e senti uma enorme vontade de expressar aquela emoção em palavras. Não demorou muito para o súbito da realidade bater na cabeça como um golpe de taco de baseball: eu escrevo para quem mesmo?

Deve ser coisa do meu signo, dessas teorias que as pessoas inventaram para deixar as dores menos amargas. Buscar algum tipo de aprovação nessa altura do campeonato já não é uma atitude tão sábia – e se toda a minha adolescência foi em prol dessa busca? Acho que ainda tenho 20 anos.

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O ser líquido na era do botão “delete”

“Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”, já dizia Zygmunt Bauman na obra Amor Líquido. Foi exatamente com essa frase que eu deixei o ceticismo de lado. A rotina e a monotonia me transformaram em um cavaleiro com armadura de ferro: voraz por dentro, inacessível por fora. Estamos cada vez mais equipados com celulares, tablets e notebooks ultramodernos. A tecnologia mascarou o medo do abandono e da solidão, mas distanciou o contato humano e abriu portas para a superficialidade e a indiferença. Os relacionamentos de hoje são líquidos, passageiros, frágeis e momentâneos.

Eu era uma pessoa racionalmente equilibrada, até me dar conta de que estava caminhando na corda da indiferença. Os relacionamentos eram rápidos como um amor de verão, os amigos evitavam qualquer aproximação e a família nem sequer ligava para saber como estava o trabalho. Eu era um ponto de interrogação em uma folha branca e isso me bastava.

O relacionamento familiar e afetivo deixou de ser a coisa mais importante e deu lugar aos prazeres momentâneos do cotidiano. O pior de tudo: eu estava cego pelas amarguras do passado. Senti que algumas qualidades (para mim, no caso) se tornaram frequentes no meu modo de pensar. Eu tinha um escudo contra a solidez e insistia em me perder na inconstância de um rio. Entre a liquidez e o desejo, a superficialidade fazia o papel de vilão.

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foto: alvaro lara

Respirei pausadamente, meditei por meses. Havia uma voz que pedia para eu parar. Desacelerei de uma rotina que não me cabia mais. Vi pessoas se afogando, enxerguei o caos que estava vivendo. Foi a partir daí que percebi o desatino no peito: eu precisava de amor e não sabia. Escorria entre os dedos feito água, fechava a mão e não salvava. Não escolhemos o amor, é ele quem nos acolhe: amor de mãe, pai, namorado, amigos. O elixir da vida é de graça.

Viver no mundo líquido requer consciência e compaixão. Caso contrário, o afogamento é inevitável. Consciência para não se perder na superficialidade dos laços humanos. Compaixão para curar feridas quando necessário. Sair da zona de conforto é olhar do alto de um arranha-céu. É sentir alívio após carregar uma bagagem pesada nas costas. É encontrar o equilíbrio. Enfim, transbordei.

Conversamos durante duas horas, foi exatamente esse tempo que levou para compartilharmos os gostos, o bom humor e as experiências de vida. Bastou um milésimo de segundo para ter a plena certeza de que queria tocá-lo. Bastava-me esticar um braço para atingir a ponta daquele queixo barbado. A docilidade daquele gesto me possuía de modo que eu esquecesse quem eu era.

O beijo começou.

Quanto tempo dura? Faz silêncio, despenca uma estrela. Defino-me na tua boca como quem encontra o paraíso e sorri com dentes amarelados. A imensidão da sua voz agora é parte da minha saliva. Demorou um minuto, trinta e sete segundos e um dia inteiro para compreender de que aquilo era o máximo que eu teria de você. Se eu pudesse rebobinar o passado, eu desejaria estar tocando o seu queixo outra vez.

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Diversas tempestades e santos

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Sabe aquela sensação de estar fazendo alguma coisa errada e não ter a capacidade para enxergar? É exatamente assim como me sinto nos últimos dias. No lugar de uma boa saúde, uma tosse seca que poderia se transformar em uma tuberculose ou então a dor de cabeça que não cessa e poderia ser indícios de um tumor.

Um tanto pessimista achar que as coisas ruins acontecem facilmente com a gente, é por isso que remedio uma situação antes mesmo da probabilidade acontecer.

Basta cortar o mal pela raíz e não será obrigado a conviver com as dores e angústias do relapso presente. Estar vivo é olhar dentro e fora da caixa.

“Eu sou a amiga mais antiga”

Veio em minha direção, sentou-se a mesa e apontou os dois dedos maiores como quem pede um cigarro. Falou meia dúzia de palavras e balancei a cabeça num tom afirmativo “tá tudo bem”. Neste momento eu percebi o quanto você era responsável pela minha felicidade – que começou há poucas semanas e perdurou até o dia de sua partida.

Nestes encontros eu confessei coisas, falei em tom baixo, dei risadas bobas. “Eu sou a amiga mais antiga”, dizia ele num tom irônico e adorável. Pedia atenção e logo era atendido. Fazia birra como criança para ver o seu programa de TV favorito (o controle remoto estava em seu poder).

Queria te contar outras coisas, rir de mais piadas prontas e fumar um cigarro na sua varanda. Você partiu e nem deu tempo de dizer adeus. Deixou mais meia dúzia de palavras e um coração cheio de saudade.

So much thank you for madness in me

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Eu nunca disse o quanto eu gosto de você da maneira que sempre quis. Parece que tudo é pouco perto do que você significa pra mim. É dessa forma que eu busco maneiras de impressionar você.

Só nós dois sabemos o que passamos para chegar até aqui, só nós dois sabemos o quanto foi bom e difícil alcançar os nossos objetivos juntos. Temos muitos outros pela frente, mas o importante é que sempre nos mantemos firmes nos nossos ideais. É por isso que eu quero ficar do seu lado. Eu tenho um ideal que você também tem e é com isso que fortalecemos a cada obstáculo (mesmo que seja pequeno).

O que eu quero dizer de verdade é que o meu ideal é proteger o amor que tenho com todas as minhas forças e dá-lo para você – porque é você que eu escolhi, é você que quero.

Monólogos estelares

Foi assim:

Estava quente, lembro-me bem. As luzes naquele bar oscilavam e dificultava a leitura do livro que trouxera na mochila. Era uma noite quente, o barulho da avenida não incomodava tanto quanto o som que vinha daquele lugar. Sentado na última mesa próximo à janela, avistei uma moça que tinha nas mãos um copo de qualquer coisa. Tinha dedos pequenos, apertava o copo com tanta determinação para não deixar a bebida cair ao chão, mas também tinha um aspecto de menina – talvez 15 ou até 17 anos.

Parei a leitura. Nesse momento já não me importava com o barulho e dediquei minha noite para cobiçar a pequena notável. Ela pegou um maço de cigarros da sua jaqueta e levou um deles à boca, riscou calmamente o pavio em direção à ponta do mesmo queimando e fazendo fumaça em sua volta. O aspecto da pequena não era mais inocente e não daria mais 17 anos para aquele espetáculo exuberante, cresceu em poucos minutos e formou-se mulher como nunca tinha visto antes.

O engraçado desta situação é que não tive pudor algum, continuava olhando insistentemente até que a moça reparou e começou a flertar em retribuição. Fiquei vermelho, depois mudou para roxo e terminou amarelo.

A situação ficou assim por vinte minutos e como homem, precisava pensar em algo para cortejá-la. Olhei para mesa onde estava e não consegui enxergar nada tão especial quanto aqueles olhos tímidos, mas foi em vão, ela vinha em minha direção. Andou calmamente e parou em uma das mesas no caminho – assim como um ônibus que para nos pontos específicos para acolher passageiros – apertou o restante do cigarro em um pote decorado com a estampa do estabelecimento e continuou andando em minha direção, mas em momento algum me olhou. Ela está vindo para cá? Está.

– Oi – disse ela.
Olhei para o livro, olhei para ela e me fiz de ocupado:
– Ah… hm, olá.
– Posso me sentar?
– Claro, há três lugares vagos aqui… hm. Só escolher o que mais agrada.
– Obrigada.
– Tudo bem.

Abri o livro, mas conhecia aquela página. Pular a página seria um erro, transparecia minha energia. Parei aqui, onde as pessoas ficaram reprimidas devido à cegueira.

– O que está lendo?
– Eu? Ah. É, Saramago.
– Oh, eu adoro Saramago e acredito na sua opinião sobre a religião e o modo como expõe suas críticas sobre a mesma. São deliciosos os ensaios.
– Também gosto, são ótimos.

A menina-mulher puxou outro cigarro da jaqueta e ao riscar o palito perguntou se poderia, balancei a cabeça em tom de afirmação. Relaxou mais, não transparecia nervosismo algum por estar sentada na mesa com um desconhecido.

– Qual é o seu nome? – Indagou – Pessoas como você são misteriosas, escrevem bem, mas não são bons de cama.
– Pessoas como eu? Como pode ter tanta certeza assim?
– Está sozinho em um sábado a noite lendo Saramago em um bar da avenida. Estou supondo somente.
– Tudo bem.

O silêncio continuou em seguida e parecia ser monstruoso a cada minuto. Ela não, estava ótima e parecia super acostumada com aquelas situações. Pegou uma de minhas canetas sobre a mesa e riscou um guardanapo de papel. O tormento da música alta tirou sua concentração porque seu cantor preferido começou a tocar uma de suas músicas, talvez a preferida dela.

A canção falava sobre alguma menina, talvez ela mesma, misturava dor e amor ao mesmo tempo. Era mais alta por dentro, balançava a cabeça e me olhava esperando que eu vá convidá-la para girar em seus braços. Oh não, sou torto e… oh não, eu não sei destas coisas. Um dia, talvez, ah um dia! Quem sabe o tempo me faça dançarino, você aceita com o tempo? Sim.

“Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando e ela ainda está sambando”.

Comecei a admirar sem motivos esta estranha – que fabulosa pupila! Continuou balançando na cadeira freneticamente, mas os cabelos curtos e bem pretos balançavam pouco. Parecia uma criança correndo em jardins floridos desconhecidos. Depois do cigarro, pegou um chiclete e levou à boca.

– Adoro Chico! Desculpe, eu sou tantas emoções.

Uma informação nova: tantas emoções. Menina, mulher, louca, desconhecida, vulnerável, amante, amada, ativa e tantas emoções – escolha uma, por favor. Concentrou-se no chiclete para tirar todo o gosto do tabaco, ela deve ter um namorado e ele não gosta do teu maço. Mas ela não tinha.

– Uma existência do pensamento é cada mastigar de um chiclete, tantos minutos mascando.
– Eu não gosto de chicletes.
– Depois o lixo. Cinzeiro. Saco plástico.
– Pode ser, mas eu…
– Até encontrar a melhor marca de chicletes.
– Hm, talvez.
– Se é que existe…

Os diálogos eram pausados por um silêncio ensurdecedor. Só ela falava, eu contemplava. Jogava a informação para o alto e eu a respirava. Era um jogo de beisebol onde ela lançava a bola branca cheia de surpresas e eu arrebatava para longe expandindo aquele pensamento. Os pontos eram marcados quando ela sorria, vasto sorriso que crescia a cada pequeno olhar. Amor novo, talvez aqueles de escola. Escrevíamos recadinhos apaixonados e passava o papel até chegar ao destinatário. Lia e respondia rapidamente, pois conhecia o desespero também. Foi assim.

A louca levantou bruscamente e despediu-se. Por quê? É tarde. Por quê? É tarde. Eu aceito o seu chiclete. É tarde, meu pequeno escritor. Olha… mas. Deu-me um beijo no rosto e caminhou até a porta de saída sem olhar para trás. Pequena e adorável. Pequena e notável. Pequena e… Ela esqueceu sua anotação na mesa, esqueceu o guardanapo que rabiscara. Poderia ser importante, não sei. As emoções foram tantas, mas como classificá-la agora? No papel havia palavras rascunhadas com pequenas letras, assim como a dona, linda e bela:

Monólogo.
Pega um cigarro.
Senta.
Vamos conversar?

Eu me lembro

Oito ou nove gatos pingados no salão
Eu adorei a feijoada
Era presunto enrolado no melão
E foi assim que eu vi que a vida colocou ele pra mim
ali naquela terça-feira de setembro
E foi assim que eu vi que a vida colocou ela pra mim
ali naquela quinta-feira de dezembro
Por isso eu sei de cada luz de cada cor de cor pode me perguntar de cada coisa
Que eu me lembro
Por isso eu sei de cada luz de cada cor de cor pode me perguntar de cada coisa
Que eu me lembro
Ela me achou muito engraçado
Ele falou, falou e eu fingi que ri
A blusa dela tava do lado errado
Ele adorou o jeito que eu me vesti

Para você, meu eu verdadeiro

Dessa vez eu aprendi que o silêncio pode dizer muitas coisas. É nessas conversas que você se encontra cara a cara com seu ‘eu verdadeiro’, como se não bastasse: do jeito que você criou. Parece-me que com os anos nossa imagem ganha peso e lentidão depois dos inúmeros acontecimentos (na maioria trágicos). Foi bem nesse momento que eu conversei comigo mesmo. Falamos de tudo: música, filmes, comportamento, gente que ficou com gente, bicho que pegou gente e bilhetes trocados na hora da aula. Como é de costume, o ‘eu verdadeiro’ falou do silêncio que insistia em nos dizer coisas. Todo mundo falou ao mesmo tempo, ninguém ouviu nada. É assim que meu ‘eu verdadeiro’ enxerga o meu silêncio – “…e ninguém ouviu absolutamente nada”.

Falar e falar. Repetidas vezes. Falar, falar, falar… quantas vezes eu falo sem ser ouvido? Quantas vezes sou ouvido enquanto falo? Por quantas vezes eu falei sem ninguém ouvir nada? Decidi comigo mesmo, o silêncio do meu ‘eu verdadeiro’ é o melhor ouvinte que já tive por toda a minha vida. E olha que à minha volta sobram pessoas.

Eu tenho dessas manias de falar sozinho mesmo, talvez nem seja comigo que estão falando.