Arquivo de outubro, 2008

Chico Buarque
O Pasquim – agosto/69

Acordo com nova disposição, penteado novo. Jornalista Francisco, prazer, exercendo meu ofício com toda a assunção. Já começo até a receber cartas, vejam só. Um jornalista recebe muitas cartas. Transcreve as amáveis quando falta assunto e responde às odiosas com fina ironia. De qualquer modo, o jornalista sai-se sempre tão bacana que é comum duvidar-se da autenticidade de sua correspondência. Pois dou hoje minha entrada no rol dos suspeitos afirmando que desde a minha estréia neste pasquim, recebi um trecho de carta, dois pacotes de cigarros, um telefonema e uma dúzia de lingüiças. A carta partiu da Sra. Lúcia Reis, de Ipanema, flamenguista, casada com flamenguista, naturalmente. No gostou do meu primeiro artigo, isto é, não gostou da vitória do Fluminense. A Sra. Lúcia Reis, de Ipanema, informa que ser Flamengo é morar no Encantado. É tomar umas e outras, sentar na geral, participar do suor comum, coisas que também aprovo sem o menor pudor. Depois ela fala da coluna social, de impedimento, de Armandinho, e de outros argumentos que não entendi bem. Mas deixo de responder diretamente à Sra. Reis, em cuja caligrafia reconheço a inspiração do marido, para desfazer um equívoco maior. Duma vez por todas: sou Flamengo. Todo bom tricolor, a princípio, é rubro-negro. Porém, é um rubronegro tão curtido e fermentado pela vida que, um belo dia, pode chegar à mesa e declarar: “Irmãos, consegui! Finalmente torço pelo Fluminense.” E os irmãos, pondo-se em fila indiana, inclinando-se e cumprimentando-o: “Parabéns, companheiro, você merecia.”

Bem-vindos os vinte maços do meu cigarro enviados por João Manuel Fernandes, de São Paulo. Menos bem-vinda a notícia que os acompanha: a minha marca preferida está acabando. Parou no Rio, parou em Minas. Seu último reduto é a valente capital bandeirante que não pode parar. Aí fico meditando sobre a ingratidão humana. Porque, quando a gente adota um cigarro, presume estar fazendo uma opção para o resto da vida. Assim fiz eu aos 15 anos, com precoce determinação. Vieram os cigarros com filtro, não me alterei. Não me arrebataram os cigarros longos king size, marca de nobreza e distinção. Resisti até ao anúncio da moça loira, aquela da boca grande, disposta a qualquer aventura com o homem que fumasse mentolados. Veio o cigarro americano, a propaganda do câncer, veio o aumento, a tosse, e cá estou eu inexpugnável, dez anos de fidelidade, cinqüenta cigarros por dia. Façam as contas, senhores fabricantes, pensem no caso e tenham piedade de mim.

Tom Jobim telefona de Londres… Diz ele que Londres é bom, é civilizado, é civilizado mas é bom. Então ele mostra o bolero que compôs para o filme. O João Gilberto faz muito bem de estar lá no México, diz ele. O Vinícius voltou ao Brasil, né? É, o Vinícius é que está certo. O Caetano Veloso também. Aí ele manda eu esperar um pouco e fica aquela linha pendurada na Europa. A telefonista não gosta disso e começa a brigar comigo. Volta o Tom e diz que o Drummond é que tem razão: “O poeta é um ressentido, o mais são nuvens.” O Caymmi também sabe o que diz. Quando o cobrador pergunta pelo último samba, o baiano responde que emburreceu, só isso. Em Londres ninguém cobra nada, tem aquela cerveja inteligente e aquela grama bem cortada. Em Londres só não come bem quem não conhece o Mercado e as sutilezas da língua. Tom, por exemplo, vai à compra toda manhã e ordena: “Dry meat and string beans”, ou seja, carne seca e feijão de corda, que além de bom engorda.

Por falar em comida brasileira, e para terminar, quero agradecer à alma bondosa e anônima que deixou lingüiça na porta de casa. Era só o que faltava. Enfim tenho a matéria prima para organizar a maior feijoada de Roma, assim que as fraldas de minha filha desocuparem o caldeirão.

Na ânsia do tempo livre e na perdição das palavras, eis que me perco em versos do Malandro.

Certa vez, um menino de dez anos ganhou uma bicicleta de sua mãe, sem nenhuma data especial ou motivo para comemorações. A mãe teorizava dizendo que é dessa forma que amará os filhos durante sua existência na Terra.

Como digo, a indiferença é o mal do século (do meu, em particular), mas seria uma conseqüência do egoísmo e do medo? Essa mudança de comportamento é milenar, está presente em toda a história dos seres humanos. Dividimos um pouco dela a cada dia com as pessoas que nos cercam, pois eis a conclusão: o contrário de amor não é o ódio e sim, a indiferença.

Essa contradição é feia, é preto e branco, é notória e dói muito mais que o ódio. Eis aqui a minha confissão do dia, o meu espelho e minha possível salvação – Semeio o medo e a vergonha dos problemas que enfrento e isso é certo, está me envolvendo negativamente e mudando meu conceito sobre e para as pessoas.

Exemplificando melhor, outro dia, os convidados de uma festa foram levados ao hospital após ingerirem maionese com salmonela. A comida estragada causa ânsia, o organismo repugna e se não for expelida, infectará outros órgãos. Adoeço quando consumo algo aparentemente positivo, o efeito colateral só vem depois da digestão. É isso, cansei de digerir comida estragada e achar que sou saudável. Percebo que a indiferença não começa em mim para as pessoas, ela começa em mim e para mim até a podridão. O que ofereço para as pessoas é o estado podre, a maionese estragada, o efeito colateral.

Não é a toa que vivo em uma fase que faz jus à Lei da Causalidade. Mas isto basta, não vou espojar-me à lama até que a terra suja seque em minha pele impregnando aquele odor desconfortável. Quero me redimir desta situação caótica e leve o tempo que for, pois não há nada mais atraente e confiante quando estamos de cara limpa para a realidade.

Fechei o meu botão para não sentir frio. Habilidade estúpida quando temos um sol para rachar nossos crânios sem piedade. Contudo, tranco-me em casa para não encontrar as pessoas e corro para o trabalho para não receber um esbarrão na esquina. Sinto-me deveras irritado, culpo o aquecimento global. Há dias no mês que sinto uma tristeza maior do que eu, mas há momentos no dia que penso em como seria ideal nascermos semi-prontos e embalados para consumo diário. Assim, sem confusões psicológicas.

Lugar certo

Ei, você foi tão rápida. Quem vai pular em mim quando chegar do trabalho? Se eu soubesse que sua passagem fosse tão imediata, teria preparado uma despedida inesquecível. Só que você esqueceu a doçura de criança arteira na sua casinha e isso dói demais.

Da raíz

A volta do novo, o sempre mais do mesmo recomeçou. Só que agora danou-se, meu bem. E digo mais, não quero saber da ausência de compreensão nas conversas que tive até este momento. Parei na contramão, mas eu posso voltar (sempre haverá espaço para um recomeço). Mudarás tua postura quando estiver fatigado dessa vida. Mas hoje, quem levanta a bandeira branca sou eu.

Tateando corpos no escuro

Dois anos após o último esbarrão e ele, no acaso, o encontrou andando pelo centro da cidade. Não acreditou no que seus olhos viam. O aspecto era radiante e sabe-se lá o que fez para estar tão bem desde a última troca de olhares. “Você está ótimo”, “Você não muda nunca”, “Tentei te ligar, mas onde esteve todo esse tempo?”, “Por aí”. “Tome, pegue o meu endereço e vá me visitar. Deixe esse orgulho de lado e venha tomar um café comigo”. “Eu te ligo”. “Ok”.

No dia seguinte uma ligação, duas no mesmo dia e uma terceira para dar boa noite. Que gracinha, pensou. E assim marcaram o café. Ele chegou de moto, o outro de cavalaria fazendo todo aquele ar místico ser mais fabuloso como os de contos infantis. Sentaram e discutiram sobre tudo o que fizeram desde a última vista: Fui promovido, dizia ele. Minha exposição é dia 10, quero que conheças o meu trabalho.
Gargalhavam e discutiam sobre a vida sem pontos ou vírgulas. Acentuar as palavras não é algo que ambos fazem bem, quem dera discutir os parágrafos e pontos de interrogação. Mas o centro da admiração é visível e a ternura daquela discussão crescia como tinha de ser.

Terminaram aquele café na imensidão do quarto branco sobre a luz do dia. Um não gostando de claridade, o outro dizia que sentiu saudade. Romperam ali mesmo, no chão gélido e da manhã fria.
A sensação constante de saudade abria um buraco no coração para o outro sugar. Abraçaram-se maliciosamente e irradiaram-se de luzes brancas por dentre os dedos das mãos, dos pés e da boca.

Deram o último beijo demorado daqueles que não deve-se parar, porque é o abismo onde gostariam de se perder todos os dias no horário do café. Assim fugiriam do presente, estabelecendo a ligação passado com um desejo oculto pelo futuro. Atormentados por aquela sensação, despediram-se como se rompessem o cordão umbilical de uma criança com sua mãe. E pensaram nos dois anos perdidos, tateando no escuro o corpo um do outro como a libertação de suas almas.

Permita-me ser franco. Tudo e só o que eu queria é que o para sempre existisse quando você viesse e eu te pedisse pra ficar.