Arquivo para junho, 2014

meandyou

Eu nunca disse o quanto eu gosto de você da maneira que sempre quis. Parece que tudo é pouco perto do que você significa pra mim. É dessa forma que eu busco maneiras de impressionar você.

Só nós dois sabemos o que passamos para chegar até aqui, só nós dois sabemos o quanto foi bom e difícil alcançar os nossos objetivos juntos. Temos muitos outros pela frente, mas o importante é que sempre nos mantemos firmes nos nossos ideais. É por isso que eu quero ficar do seu lado. Eu tenho um ideal que você também tem e é com isso que fortalecemos a cada obstáculo (mesmo que seja pequeno).

O que eu quero dizer de verdade é que o meu ideal é proteger o amor que tenho com todas as minhas forças e dá-lo para você – porque é você que eu escolhi, é você que quero.

Monólogos estelares

Foi assim:

Estava quente, lembro-me bem. As luzes naquele bar oscilavam e dificultava a leitura do livro que trouxera na mochila. Era uma noite quente, o barulho da avenida não incomodava tanto quanto o som que vinha daquele lugar. Sentado na última mesa próximo à janela, avistei uma moça que tinha nas mãos um copo de qualquer coisa. Tinha dedos pequenos, apertava o copo com tanta determinação para não deixar a bebida cair ao chão, mas também tinha um aspecto de menina – talvez 15 ou até 17 anos.

Parei a leitura. Nesse momento já não me importava com o barulho e dediquei minha noite para cobiçar a pequena notável. Ela pegou um maço de cigarros da sua jaqueta e levou um deles à boca, riscou calmamente o pavio em direção à ponta do mesmo queimando e fazendo fumaça em sua volta. O aspecto da pequena não era mais inocente e não daria mais 17 anos para aquele espetáculo exuberante, cresceu em poucos minutos e formou-se mulher como nunca tinha visto antes.

O engraçado desta situação é que não tive pudor algum, continuava olhando insistentemente até que a moça reparou e começou a flertar em retribuição. Fiquei vermelho, depois mudou para roxo e terminou amarelo.

A situação ficou assim por vinte minutos e como homem, precisava pensar em algo para cortejá-la. Olhei para mesa onde estava e não consegui enxergar nada tão especial quanto aqueles olhos tímidos, mas foi em vão, ela vinha em minha direção. Andou calmamente e parou em uma das mesas no caminho – assim como um ônibus que para nos pontos específicos para acolher passageiros – apertou o restante do cigarro em um pote decorado com a estampa do estabelecimento e continuou andando em minha direção, mas em momento algum me olhou. Ela está vindo para cá? Está.

– Oi – disse ela.
Olhei para o livro, olhei para ela e me fiz de ocupado:
– Ah… hm, olá.
– Posso me sentar?
– Claro, há três lugares vagos aqui… hm. Só escolher o que mais agrada.
– Obrigada.
– Tudo bem.

Abri o livro, mas conhecia aquela página. Pular a página seria um erro, transparecia minha energia. Parei aqui, onde as pessoas ficaram reprimidas devido à cegueira.

– O que está lendo?
– Eu? Ah. É, Saramago.
– Oh, eu adoro Saramago e acredito na sua opinião sobre a religião e o modo como expõe suas críticas sobre a mesma. São deliciosos os ensaios.
– Também gosto, são ótimos.

A menina-mulher puxou outro cigarro da jaqueta e ao riscar o palito perguntou se poderia, balancei a cabeça em tom de afirmação. Relaxou mais, não transparecia nervosismo algum por estar sentada na mesa com um desconhecido.

– Qual é o seu nome? – Indagou – Pessoas como você são misteriosas, escrevem bem, mas não são bons de cama.
– Pessoas como eu? Como pode ter tanta certeza assim?
– Está sozinho em um sábado a noite lendo Saramago em um bar da avenida. Estou supondo somente.
– Tudo bem.

O silêncio continuou em seguida e parecia ser monstruoso a cada minuto. Ela não, estava ótima e parecia super acostumada com aquelas situações. Pegou uma de minhas canetas sobre a mesa e riscou um guardanapo de papel. O tormento da música alta tirou sua concentração porque seu cantor preferido começou a tocar uma de suas músicas, talvez a preferida dela.

A canção falava sobre alguma menina, talvez ela mesma, misturava dor e amor ao mesmo tempo. Era mais alta por dentro, balançava a cabeça e me olhava esperando que eu vá convidá-la para girar em seus braços. Oh não, sou torto e… oh não, eu não sei destas coisas. Um dia, talvez, ah um dia! Quem sabe o tempo me faça dançarino, você aceita com o tempo? Sim.

“Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando e ela ainda está sambando”.

Comecei a admirar sem motivos esta estranha – que fabulosa pupila! Continuou balançando na cadeira freneticamente, mas os cabelos curtos e bem pretos balançavam pouco. Parecia uma criança correndo em jardins floridos desconhecidos. Depois do cigarro, pegou um chiclete e levou à boca.

– Adoro Chico! Desculpe, eu sou tantas emoções.

Uma informação nova: tantas emoções. Menina, mulher, louca, desconhecida, vulnerável, amante, amada, ativa e tantas emoções – escolha uma, por favor. Concentrou-se no chiclete para tirar todo o gosto do tabaco, ela deve ter um namorado e ele não gosta do teu maço. Mas ela não tinha.

– Uma existência do pensamento é cada mastigar de um chiclete, tantos minutos mascando.
– Eu não gosto de chicletes.
– Depois o lixo. Cinzeiro. Saco plástico.
– Pode ser, mas eu…
– Até encontrar a melhor marca de chicletes.
– Hm, talvez.
– Se é que existe…

Os diálogos eram pausados por um silêncio ensurdecedor. Só ela falava, eu contemplava. Jogava a informação para o alto e eu a respirava. Era um jogo de beisebol onde ela lançava a bola branca cheia de surpresas e eu arrebatava para longe expandindo aquele pensamento. Os pontos eram marcados quando ela sorria, vasto sorriso que crescia a cada pequeno olhar. Amor novo, talvez aqueles de escola. Escrevíamos recadinhos apaixonados e passava o papel até chegar ao destinatário. Lia e respondia rapidamente, pois conhecia o desespero também. Foi assim.

A louca levantou bruscamente e despediu-se. Por quê? É tarde. Por quê? É tarde. Eu aceito o seu chiclete. É tarde, meu pequeno escritor. Olha… mas. Deu-me um beijo no rosto e caminhou até a porta de saída sem olhar para trás. Pequena e adorável. Pequena e notável. Pequena e… Ela esqueceu sua anotação na mesa, esqueceu o guardanapo que rabiscara. Poderia ser importante, não sei. As emoções foram tantas, mas como classificá-la agora? No papel havia palavras rascunhadas com pequenas letras, assim como a dona, linda e bela:

Monólogo.
Pega um cigarro.
Senta.
Vamos conversar?